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Como os exploradores mapearam as geleiras da Groenlândia desde 1850
A história dos levantamentos de Hinrich Rink, Nansen, Nordenskiöld e das primeiras medições da geleira Sermeq Kujalleq.
Das primeiras descrições medievais aos levantamentos científicos
As descrições mais antigas conhecidas da calota de gelo da Groenlândia remontam ao começo da Idade Média. Um texto norueguês concluído por volta de 1260, conhecido como Espelho do Rei, descrevia um território em que apenas uma pequena faixa estava livre de gelo. Montanhas e vales do interior permaneciam ocultos, e as tentativas de encontrar novas áreas habitáveis além das regiões costeiras não haviam tido êxito.
Esse relato mostra que a presença de um grande manto de gelo era conhecida muito antes das pesquisas glaciológicas modernas. Faltava, porém, compreender sua extensão, espessura, comportamento e relação com os icebergs que surgiam nos fiordes.
A colonização dinamarquesa iniciada em 1721 e o estabelecimento de povoados, inclusive em Ilulissat em 1741, produziram registros cada vez mais numerosos sobre a terra, a população e a natureza. Missionários e comerciantes que viajavam pela costa oeste escreveram sobre Kangia e sobre a margem do gelo continental.
Observações do começo do século XVIII sugerem que o fiorde de gelo ficava ocasionalmente livre de obstáculos. No decorrer do século XVIII e no início do XIX, a frente glacial avançou. Em 1770, o missionário David Cranz procurou explicar a origem dos icebergs e da calota, comparando suas observações com geleiras europeias e americanas.
Hinrich Rink e a descoberta da escala continental do gelo
Durante décadas, as primeiras pesquisas sistemáticas foram dominadas pelo trabalho de Hinrich Rink. Formado originalmente em química e física, ele realizou estudos geológicos na Groenlândia Ocidental entre 1848 e 1852, percorrendo a costa desde Upernavik, no norte, até Qaqortoq, no sul.
Seu objetivo era produzir um mapa baseado em levantamentos próprios e anteriores, completados por esboços preparados por caçadores locais. Rink concentrou-se na região central da costa oeste, pouco conhecida pelos pesquisadores europeus da época. Conseguiu medir trechos importantes dos fiordes e das geleiras.
Rink passou o inverno em Ilulissat e, em outubro de 1850, navegou até a borda da calota em Paakitsoq, ao norte da cidade. Em abril de 1851, viajou de trenó até a parte meridional de Sermeq Kujalleq, onde determinou a localização de sua frente. Essas medições abriram uma série histórica de observações das mudanças na posição da geleira que se estendeu por mais de 150 anos.
Os registros da frente, somados às medições da velocidade de Sermeq Kujalleq desde 1875 e às observações meteorológicas feitas em Ilulissat desde 1873, constituem um conjunto excepcional de informações do Ártico.
O nome e o conceito de calota continental
Poul Egede já havia sugerido, em 1788, que existia uma cobertura de gelo contínua na Groenlândia. Rink, entretanto, foi o primeiro cientista a compreender a extensão extraordinária e a forma particular da vasta superfície congelada sobre o interior da ilha.
Ele chamou essa cobertura de Indlandsisen, nome adotado por sugestão do cientista dinamarquês Japetus Steenstrup. O fenômeno era muito diferente das geleiras de vale estudadas anteriormente.
Na Europa, ganhava força a hipótese de que grandes regiões haviam sido cobertas por gelo durante épocas passadas. Por isso, as descrições de Rink despertaram interesse: uma calota continental existente poderia servir como exemplo para compreender as antigas glaciações europeias.
Rink também formulou uma explicação para a produção de icebergs. Segundo ele, a neve acumulada no interior alimentava correntes de gelo que levavam a massa congelada à costa, assim como rios drenam a precipitação de grandes bacias. Estimou a produção de icebergs com base na dimensão das geleiras e na quantidade de gelo encontrada nos fiordes.
Identificou cinco grandes correntes de primeira ordem — Jakobshavn, Tossukatek, Den større Kariak, Den større Kangerdlugssuak e Upernavik — e calculou áreas de drenagem de 50 mil quilômetros quadrados ou mais para cada uma. Ainda não havia reconhecido a posição singular de Sermeq Kujalleq como principal saída do gelo continental.
Expedições e medições no século XIX
Na segunda metade do século XIX, cresceu rapidamente o interesse pelas geleiras groenlandesas. Pesquisadores como Erich von Drygalski, Robert Peary, Adolf Erik Nordenskiöld e, posteriormente, Alfred Wegener estiveram entre os visitantes da região.
Em 1870, Nordenskiöld descreveu a frente de Sermeq Kujalleq, embora não conseguisse distinguir claramente o gelo fixo da geleira dos blocos já desprendidos no fiorde. A partir de Arfersiorfik, cerca de 90 quilômetros ao sul de Ilulissat, avançou 56 quilômetros sobre a calota, atingindo altitude de 680 metros. Uma expedição posterior saiu do mesmo ponto e alcançou 350 quilômetros para o interior, a 1.947 metros de altitude.
Em julho de 1875, A. Helland registrou a posição da frente glacial e realizou uma das primeiras medições de sua velocidade de deslocamento. Em 1879, R. R. J. Hammer mapeou o sistema de fiordes, inclusive geleiras nos fundos de Sikuiuitsoq e Tasiusaq, determinando a posição da frente em setembro.
Hammer regressou em março e agosto de 1880. Suas observações indicaram um avanço de inverno de aproximadamente um quilômetro e um recuo de verão de cerca de dois quilômetros. A velocidade na região central da frente poderia alcançar 16 metros por dia. O movimento não era uniforme, e suas medições não mostraram uma relação simples entre a velocidade da frente e a temperatura do ar.
Hammer também observou que grandes icebergs podiam se desprender por fissuração da frente provocada pelo empuxo na parte flutuante da geleira. Essa interpretação ajudava a relacionar a dinâmica interna do gelo com a formação de blocos que depois navegavam pelo fiorde.
Tentativas de alcançar o interior
Em 1886, Robert Peary saiu de Paakitsoq, aproximadamente 40 quilômetros ao norte de Kangia, e, acompanhado por Chr. Majgaard, avançou 185 quilômetros sobre o manto de gelo, chegando a quase 2.300 metros de altitude. Uma descrição da região próxima à margem foi publicada após a viagem.
Em 1888, S. Hansen elaborou um mapa para o serviço hidrográfico dinamarquês. Fotografias dessa época sugeriram divergências entre a posição da frente observada e a cartografia disponível. E. von Drygalski visitou a parte sul da geleira em fevereiro de 1893; a posição da frente foi marcada em mapa, embora sua determinação fosse difícil.
M. C. Engell fez novas medições em julho de 1902, constatando que a frente ainda recuava em relação à posição vista por Rink em 1851. Engell descreveu também os fiordes de Sikuiuitsoq e Tasiusaq. Em 1903, retornou e observou o desprendimento de um iceberg de grande porte. A frente foi localizada com alguma incerteza cerca de 350 metros mais a oeste do que no ano anterior. Houve ainda uma visita no verão de 1904, sem determinação segura da posição da frente.
Em agosto de 1913, J. P. Koch e Alfred Wegener visitaram Sermeq Kujalleq depois de sua travessia da calota entre 1912 e 1913. A posição medida indicava recuo significativo desde 1902. J. Georgi e E. Sorge fizeram observações em 1929, durante os preparativos para a expedição de Wegener de 1930–1931.
O Instituto Geodésico de Copenhague publicou, em 1931–1932, uma folha cartográfica de Jakobshavn na escala de 1:250.000, registrando a posição glacial então conhecida.
Fotografia aérea, radar e satélites transformam as pesquisas
Durante a Segunda Guerra Mundial, a cartografia baseada em fotografias aéreas avançou consideravelmente. Regiões remotas da Groenlândia passaram a ser estudadas com detalhe crescente, sem depender exclusivamente de equipes terrestres. Veículos capazes de circular sobre a superfície congelada também facilitaram a exploração de setores interiores livres de grandes fendas.
Entre 1948 e 1953, as Expéditions Polaires Françaises investigaram um perfil que atravessava a Groenlândia de leste a oeste. Procuravam medir a superfície e o fundo do gelo continental e determinar seu balanço de massa. A zona ao sul de Eqip Sermia, cerca de 70 quilômetros ao norte de Ilulissat, foi estudada como extremidade ocidental do perfil.
De 1957 a 1960, a Expédition Glaciologique Internationale au Groenland reuniu equipes da Áustria, Dinamarca, França, Alemanha e Suíça. A análise de imagens aéreas permitiu determinar velocidades de geleiras na baía de Disko e no fiorde de Uummannaq, bem como estimar a produção de icebergs. Os resultados confirmaram a importância excepcional de Sermeq Kujalleq.
Depois de 1960, tornou-se prioritário medir a espessura do gelo e mapear a topografia escondida sob a calota. Entre 1968 e 1976, em seis temporadas de pesquisa, aeronaves equipadas com radar percorreram mais de 60 mil quilômetros de perfis. Pela primeira vez surgiu uma visão integrada de grande parte da paisagem sob o gelo da Groenlândia.
O radar transportado por helicóptero forneceu novos detalhes sobre a continuação dos fiordes sob a margem congelada e a profundidade dos canais das correntes de gelo. Parte desses estudos esteve ligada à investigação do aproveitamento de água de degelo para produção de energia nas regiões de Ilulissat e Qasigiannguit. Medições da espessura de Sermeq Kujalleq foram publicadas em 2001.
Séries históricas e o acompanhamento contemporâneo
O monitoramento moderno utiliza dados de satélite para observar repetidamente a mesma região em intervalos relativamente curtos. Fotografias aéreas continuam importantes, mas os satélites ajudam a medir mudanças de posição, topografia superficial e velocidade de deslocamento ao longo do tempo.
Os registros indicam um forte recuo da frente de Sermeq Kujalleq antes da década de 1950, seguido por período de relativa estabilidade. Durante parte desse intervalo, ainda ocorriam recuos de verão e avanços de inverno. Depois de muitos anos estáveis, a frente voltou a recuar de modo expressivo a partir de 2002.
O interesse científico também aumentou em torno das geleiras que apresentam avanços rápidos e temporários, fenômeno chamado surging. Algumas geleiras menores alternam fases de movimento lento e episódios breves de aceleração. Já as grandes correntes de gelo da Groenlândia e da Antártida mantêm velocidades elevadas por causa de suas vastas áreas de alimentação.
Compreender essas diferenças é essencial para investigar as mudanças de grandes mantos glaciais. A região de Ilulissat reúne séries históricas longas, observações meteorológicas e dados da dinâmica do gelo. Na década de 1980, estudos ligados ao aproveitamento hidrelétrico acrescentaram medições contínuas de temperatura, precipitação e radiação junto à margem continental, permitindo estimar o volume de água proveniente do degelo.
A contribuição mais duradoura das expedições talvez seja justamente a continuidade: os mapas de Rink, as medidas dos exploradores, os levantamentos aéreos e os satélites permitem acompanhar a mesma geleira ao longo de gerações, mesmo quando os instrumentos e as perguntas científicas mudam.