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Como se formou a calota de gelo da Groenlândia e o que suas camadas revelam
A história da calota da Groenlândia: gelo acumulado, geleiras que produzem icebergs, eras glaciais e testemunhos que registram o clima.
O manto de gelo que cobre o interior da Groenlândia
A calota de gelo continental da Groenlândia ocupa aproximadamente 1,7 milhão de quilômetros quadrados e chega a 3,2 quilômetros de espessura. Sua existência depende de um balanço entre duas quantidades: a neve que se acumula na superfície e o gelo perdido por derretimento ou pela liberação de icebergs. O acúmulo anual de neve corresponde a cerca de 600 quilômetros cúbicos de gelo; o desprendimento de blocos nas frentes das geleiras e o derretimento nas zonas marginais respondem pelas perdas.
A espessura do gelo é tão grande que seu peso deformou a crosta terrestre. A camada repousa em uma depressão semelhante a uma bacia. Se desaparecesse, o embasamento rochoso voltaria gradualmente a se elevar, expondo um relevo que, antes das glaciações, era atravessado por grandes rios. Muitos desses cursos de água drenavam a parte central do território na direção da baía de Disko e alcançavam a margem da plataforma continental, na costa oeste.
Rios antigos sob o gelo
Quando o resfriamento permitiu a expansão das geleiras, seus movimentos continuaram a escavar os antigos vales fluviais. Esses corredores, cada vez mais profundos, passaram a conduzir grandes volumes de gelo em direção ao litoral. Ainda hoje podem ser reconhecidos como depressões na plataforma continental, fiordes nos terrenos sem cobertura glacial e vales profundos sob as correntes de gelo periféricas.
Embora haja geleiras que desprendem icebergs em numerosos pontos da costa, a maior parcela da produção anual concentra-se em poucas saídas principais, sobretudo na costa ocidental. O perímetro do manto de gelo alcança aproximadamente 6.000 quilômetros, mas cinco grandes geleiras de descarga respondem, juntas, por cerca de 84 quilômetros cúbicos de gelo desprendido; outras geleiras menores fornecem o restante.
Antes da atual calota: florestas e períodos glaciais
A passagem da antiga paisagem sem gelo para a Groenlândia atual não é conhecida em todos os detalhes. Testemunhos retirados de sedimentos oceânicos indicam um resfriamento global expressivo entre 38 e 24 milhões de anos atrás, associado à formação do imenso manto de gelo da Antártida Oriental. Mais tarde ocorreu um intervalo relativamente quente, cujo auge foi há aproximadamente 15 milhões de anos.
Por volta de dez milhões de anos atrás, o clima tornou a esfriar. Sedimentos depositados no Atlântico Norte há cerca de sete milhões de anos contêm material transportado por icebergs, um dos primeiros indícios de grandes glaciações no sul da Groenlândia. Depósitos de cerca de 2,5 milhões de anos, também contendo material transportado pelo gelo, sugerem expansão glacial por uma área maior da ilha.
Há, contudo, evidências de que o território passou por períodos posteriores sem a atual cobertura. A formação geológica de Kap København, no extremo norte, registra condições de aproximadamente 2,4 milhões de anos atrás em que a Groenlândia não estava inteiramente coberta de gelo. Naquele ambiente havia florestas de larícios, abetos e bétulas, além de vegetação de charneca nos relevos mais elevados.
Troncos antigos encontrados em Washington Land, no noroeste, ajudam a reconstruir essa vegetação: o mais comprido dos exemplares descritos alcança 176 centímetros e os troncos foram alisados pelo transporte fluvial. O manto de gelo que conhecemos provavelmente se consolidou durante as grandes glaciações do último milhão de anos.
A última grande expansão
Durante a última era glacial, enormes mantos se espalharam pelo hemisfério norte. Há cerca de 21 mil anos, aproximadamente 30 milhões de quilômetros quadrados estavam cobertos por gelo, principalmente na América do Norte. A região de Ilulissat encontrava-se no interior da extensa zona glaciada do hemisfério.
Como a neve se transforma em gelo que flui
Nas partes elevadas, a neve depositada em um ano é enterrada pelas neves seguintes. O peso crescente comprime os cristais e transforma a neve em gelo glacial. Esse processo ocorre nas centenas de metros superiores do manto. Ao mesmo tempo que as camadas descem lentamente, o conjunto flui para os lados, a partir de uma região elevada central chamada divisor de gelo, em direção às margens.
O comportamento da superfície varia conforme a altitude. No topo prevalece uma zona fria e seca, com pouco ou nenhum derretimento da neve depositada. Mais abaixo, o degelo sazonal permite que a água infiltre e volte a congelar. Em outra faixa, a neve pode ficar saturada durante o verão; a água congela novamente nas camadas inferiores.
No setor de Ilulissat, a linha da neve situa-se perto de 1.300 metros acima do nível do mar. A cerca de 1.200 metros encontra-se a linha de equilíbrio, onde o aporte de neve e água recongelada corresponde à perda por derretimento. Abaixo dela predomina a zona onde o gelo derrete durante o verão.
No topo, o deslocamento ocorre principalmente para baixo, dentro do próprio manto. Nas regiões intermediárias, a componente horizontal aumenta. Fora das correntes de gelo mais rápidas, as velocidades podem alcançar de 50 a 200 metros por ano nas proximidades da linha de equilíbrio, diminuindo na direção de certas margens.
Um arquivo de temperaturas, gases e erupções
A calota preserva informações sobre o clima e a composição da atmosfera de outras épocas. Cada camada de neve, ao ser enterrada e transformada em gelo, conserva características da precipitação original. A proporção entre dois isótopos estáveis do oxigênio varia com as condições de temperatura e permite reconstruir mudanças climáticas antigas.
Para acessar esse arquivo, perfura-se o gelo da superfície até o embasamento rochoso, quando possível. Depois os estratos são datados e suas propriedades analisadas. Os estudos descritos no material de origem obtiveram informações que recuam cerca de 250 mil anos, e registram cinco perfurações profundas realizadas na calota.
Um testemunho de perfuração do projeto NorthGRIP alcançou o fundo em 2003, com 3.085 metros de comprimento, abrangendo aproximadamente 120 mil anos de história climática.
Durante a última glaciação, o clima foi extremamente instável. Períodos de frio intenso foram interrompidos repetidamente por fases mais amenas, algumas durando milhares de anos. Em certos episódios, o aquecimento chegou a 10–20 graus em poucas décadas, seguido por resfriamento mais lento ao longo de milênios. Mudanças na circulação oceânica, especialmente no Atlântico Norte, são apontadas como explicação provável dessas oscilações.
O fim da última era glacial ocorreu de maneira abrupta há aproximadamente 11.550 anos, segundo a cronologia apresentada no estudo original. A fase interglacial atual mostrou-se bem mais estável. Houve um intervalo particularmente quente entre oito e quatro mil anos atrás, seguido de resfriamento que culminou na Pequena Idade do Gelo, com períodos frios marcantes por volta de 1600 e 1850.
As bolhas de ar aprisionadas fornecem outra dimensão da pesquisa: permitem estudar a composição atmosférica, incluindo concentrações de gases de efeito estufa. Grandes erupções vulcânicas deixam sinais de acidez, sobretudo associados ao ácido sulfúrico, além de partículas de cinza. O teor de poeira registra tempestades antigas e o transporte de material vindo de regiões desérticas e de estepes, inclusive da Ásia Central. O gelo da era glacial contém muito mais poeira do que o gelo depositado na fase interglacial atual.
Ilulissat: onde o gelo chega ao oceano
O fiorde de Ilulissat é uma saída importante da calota e permite observar diretamente processos descritos pelos testemunhos de gelo. A corrente glacial Sermeq Kujalleq transporta gelo para a extremidade do fiorde, onde grandes massas se desprendem. A água e o fundo submarino condicionam a circulação e a movimentação dos icebergs; alguns permanecem encalhados nas proximidades da saída do fiorde.
O território próximo conserva vestígios de antigos avanços e recuos da margem glacial. Essa paisagem também oferece uma rara combinação de observações modernas e registros de épocas anteriores, útil para compreender como o gelo continental responde às mudanças ambientais.
Conhecimento e preservação do fiorde
A região faz parte de um patrimônio natural reconhecido internacionalmente e reúne, além dos valores geológicos, condições importantes para a vida marinha e para comunidades que viveram de caça e pesca. Os depósitos de nutrientes sustentam cadeias alimentares que conectam o gelo, o oceano e as atividades humanas.
A relação entre a calota e o fiorde mostra por que não basta olhar para o iceberg visível: para entender sua origem é necessário acompanhar a neve acumulada no interior, o deslocamento do gelo pelos vales antigos e a frente onde os blocos se separam da geleira.