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Sermermiut e Ilulissat: os povos que viveram junto ao fiorde de gelo

As antigas ocupações de Sermermiut e Qajaa, a cultura Thule e as mudanças econômicas na história de Ilulissat.

Gelo e história natural · Versão editorial em português baseada em original dinamarquês

Uma região habitada há milhares de anos

As margens do fiorde Kangia, na Groenlândia ocidental, conservaram vestígios de comunidades que viveram junto ao gelo muito antes da cidade atual de Ilulissat. Mudanças culturais ocorridas entre a Sibéria e o Alasca há cerca de seis a cinco mil anos deram origem a novas formas de ocupação adaptadas ao ambiente ártico. Grupos humanos se espalharam para leste, alcançando regiões que exigiam conhecimento profundo dos animais, do clima e do deslocamento sobre neve e água.

A abundância de recursos nas proximidades de Kangia explica a importância de sítios como Sermermiut, ao norte da entrada do fiorde, e Qajaa, na margem sul, cerca de 25 quilômetros mais para o interior. A produtividade das águas, ligada às correntes e ao gelo, criou condições para ocupações repetidas ao longo de milhares de anos. Nem todas foram contínuas: as mudanças climáticas e o avanço da frente glacial também alteraram as possibilidades de permanência.

As primeiras ocupações da Idade da Pedra

Escavações revelaram diferentes camadas de assentamentos e demonstraram que a história humana da Groenlândia era muito mais antiga e complexa do que se supunha em meados do século XX. Quando as investigações arqueológicas em Sermermiut ganharam força depois da Segunda Guerra Mundial, ainda era comum imaginar uma pré-história groenlandesa de aproximadamente mil anos. Os materiais escavados mudaram essa interpretação.

Camadas antigas de Sermermiut foram datadas em quase quatro mil anos. Trabalhos realizados em Qajaa ajudaram a confirmar a sucessão de três tradições culturais na Groenlândia ocidental. Ferramentas, estruturas habitacionais e restos associados à obtenção de alimentos permitiram comparar maneiras de viver em diferentes épocas.

Por que Sermermiut e Qajaa eram importantes

Sermermiut ocupava uma posição próxima à saída do fiorde, enquanto Qajaa se localizava mais perto da parte central do sistema glacial. Essa diferença expunha Qajaa de maneira mais direta às mudanças da frente de gelo. Os períodos em que a geleira se retraía podiam abrir condições mais favoráveis à ocupação do local. Assim, a arqueologia e o estudo do gelo ajudam a explicar, em conjunto, por que certas áreas foram abandonadas e mais tarde reocupadas.

O nome groenlandês Sermermiut costuma ser entendido como “lugar do povo da geleira”. O nome traduz uma relação concreta com o território: não bastava habitar a costa, era necessário interpretar o estado do gelo e explorar os recursos marinhos disponíveis.

A chegada do povo Thule

Após o desaparecimento da tradição Dorset na região, a baía de Disko passou por um longo intervalo sem ocupações humanas conhecidas. Cerca de mil anos depois, grupos da cultura Thule estabeleceram-se na área. Eles chegaram à Groenlândia por volta do ano 1100 e ocuparam Sermermiut aproximadamente um século mais tarde, usando também Qajaa.

No inverno, suas moradias eram construídas com pedras e turfa, enquanto a cobertura utilizava madeira trazida pelo mar ou ossos de baleia. No verão, as famílias habitavam tendas. Essa alternância correspondia às condições sazonais e às necessidades de caça e deslocamento. Os grupos Thule exploravam muitos dos mesmos animais utilizados por populações anteriores, mas também caçavam grandes baleias e pescavam com linhas produzidas a partir de materiais animais, inclusive barbatanas.

Contato com os nórdicos e circulação de ferro

Objetos recuperados em Sermermiut e Qajaa indicam contato entre a população Thule e os nórdicos estabelecidos no sudoeste da Groenlândia a partir de aproximadamente 985. O ferro era particularmente importante. Parte desse material chegava por intercâmbio com os nórdicos; outra vinha de meteoritos encontrados no norte da Groenlândia. A circulação desses materiais mostra que as comunidades do fiorde participavam de redes que iam muito além das margens de Kangia.

Achados arqueológicos e antigas narrativas

As escavações acrescentaram informações sobre moradias, técnicas de caça e objetos de uso cotidiano. A presença de camadas arqueológicas sobrepostas exige distinguir épocas e grupos culturais, sem interpretar todos os vestígios como pertencentes à mesma população. A história local é marcada pela sucessão de tradições que responderam de maneiras diferentes às possibilidades oferecidas pelo ambiente.

Ao lado dos vestígios materiais, histórias e narrativas transmitidas entre gerações preservaram referências ao território, aos animais e às relações sociais. Mitos, crenças e relatos antigos faziam parte da compreensão da paisagem e da vida comunitária. O estudo dessas tradições não substitui a arqueologia, mas ajuda a perceber como os habitantes interpretavam o lugar onde viviam.

Comércio colonial e transformações no século XIX

No começo do século XIX, a região passou por mudanças ligadas ao comércio e aos contatos com potências europeias. As guerras envolvendo a Inglaterra e a Dinamarca afetaram o abastecimento e as relações econômicas. Entre 1830 e 1850, a expansão do comércio de produtos marinhos, especialmente óleo e gordura animal, foi acompanhada por novas instituições e pela ampliação de iniciativas de ensino.

Na segunda metade do século, doenças e deslocamentos populacionais transformaram as comunidades. O processo de abandono de Sermermiut esteve associado a mudanças econômicas e a uma grave epidemia de tuberculose. A continuidade dos antigos assentamentos tornou-se impossível nas mesmas condições que sustentaram seus habitantes durante gerações.

O alabote, a exportação e a economia da pesca

Entre o fim do século XIX e as primeiras décadas do século XX, a pesca do alabote-da-Groenlândia ganhou importância crescente. A possibilidade de comercializar o pescado mudou o trabalho local. Além das técnicas de captura e conservação, a exportação exigia transporte, organização das entregas e relações comerciais fora da região.

Os recursos do fiorde já sustentavam comunidades havia milênios, mas a passagem para uma economia orientada à exportação modificou a escala e a finalidade de parte das atividades. O gelo continuava a condicionar os deslocamentos, enquanto o desenvolvimento comercial ligava Ilulissat a mercados externos.

Guerra, reorganização e centralização

Com o início da Segunda Guerra Mundial, tornou-se evidente que a Groenlândia precisava de fontes de abastecimento distintas das rotas tradicionais. Foram estabelecidas relações diplomáticas diretas com os Estados Unidos, que assumiram responsabilidades no fornecimento de mercadorias. A experiência alterou as conexões externas do território e antecedeu profundas mudanças administrativas nas décadas seguintes.

Entre 1930 e 1960, a reorganização dos serviços e a centralização de atividades contribuíram para transformar assentamentos e relações regionais. O desenvolvimento de novas estruturas de transporte, educação e atendimento criou oportunidades, mas também modificou as condições de permanência nas pequenas comunidades.

Da indústria do camarão ao turismo

Na segunda metade do século XX, o crescimento da pesca industrial, especialmente do camarão, esteve ligado à expansão populacional e econômica. Entre 1960 e 2000, Ilulissat consolidou-se como um centro urbano importante, enquanto o turismo passou a explorar o interesse internacional pelas geleiras e pelos icebergs de Kangia.

A cidade tornou-se um dos destinos mais visitados da Groenlândia e uma das maiores do país. Embora a economia atual seja diferente da das antigas comunidades de Sermermiut e Qajaa, a localização junto ao fiorde continua essencial. A história de Ilulissat une arqueologia, modos de vida árticos, comércio marinho e transformações sociais em um mesmo território, cuja paisagem é continuamente redesenhada pelo movimento do gelo.