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Sermeq Kujalleq: a geleira que lança icebergs no fiorde de Ilulissat

A velocidade da geleira Sermeq Kujalleq, os desprendimentos de gelo, o recuo da frente glacial e o caminho dos icebergs.

Gelo e história natural · Versão editorial em português baseada em original dinamarquês

O fiorde de Ilulissat e a última glaciação

A região de Kangia preserva registros das antigas glaciações, sobretudo da última idade glacial, que começou há cerca de 115 mil anos e terminou há aproximadamente 11.550 anos. Após esse período, o recuo do gelo continuou até aproximadamente cinco mil anos atrás. Em fases mais recentes ocorreram novos avanços, com um máximo durante a chamada Pequena Idade do Gelo.

Na última glaciação, a camada de gelo provavelmente cobriu toda a área de Ilulissat e parte da plataforma continental. Grandes correntes de gelo transportavam material até o mar e produziam icebergs. Uma dessas correntes percorria uma depressão submarina de mais de 800 metros de profundidade entre Qeqertarsuaq e Aasiaat, na porção sudoeste da baía de Disko.

O manto de gelo começou a se fragmentar entre 17 mil e 12 mil anos atrás. Há aproximadamente 9.500 anos, sua margem permaneceu relativamente estável por um milênio ou mais. O formato do terreno e as morainas próximas à saída do fiorde sugerem que a posição da frente foi influenciada não apenas pelo clima, mas também pelo fato de parte da margem passar a se apoiar em terra firme.

O recuo e os avanços da frente glacial

Há cerca de cinco a quatro mil anos, a frente de Sermeq Kujalleq encontrava-se entre 15 e 20 quilômetros a leste de sua posição atual. Um período posterior mais frio, talvez também mais úmido, provocou novos avanços que culminaram no século XIX. Depois disso, a frente de muitas geleiras começou a recuar. Entre 1851 e 1950, a frente de Sermeq Kujalleq retrocedeu cerca de 26 quilômetros.

Essas alterações demonstram que a posição da geleira não permanece fixa ao longo dos séculos. A topografia do fundo, o clima, as correntes e a estrutura do gelo podem influenciar períodos de estabilidade relativa e fases de mudança rápida.

Sermeq Kujalleq: uma corrente de gelo profundamente fraturada

Sermeq Kujalleq drena aproximadamente 6,5% da superfície da calota de gelo da Groenlândia, uma área estimada em 110 mil quilômetros quadrados. O fluxo principal segue por uma depressão profunda e estreita, com largura entre três e seis quilômetros. Essa estrutura pode ser acompanhada da frente atual até cerca de 80 quilômetros no interior da camada de gelo.

Entre 1.350 e 1.400 metros de altitude, a corrente principal se divide em três ramos, que gradualmente se confundem com a superfície geral do manto. Mais perto da frente, o gelo apresenta fraturas cada vez maiores. A cerca de 50 quilômetros do término da geleira, a superfície relativamente regular passa a se tornar mais quebrada e irregular.

A profundidade escondida sob o gelo

A espessura e a topografia ajudam a compreender o movimento. Acima da linha em que o gelo deixa de se apoiar no fundo e passa a flutuar, a corrente tinha cerca de 1,9 quilômetro de espessura e uma superfície situada aproximadamente 400 metros acima do mar, conforme as medições apresentadas no estudo. Quarenta quilômetros atrás dessa zona, o gelo chegava a 2,5 quilômetros de espessura, com sua base aproximadamente 1,5 quilômetro abaixo do nível do mar.

Esses números descrevem um vale subglacial muito profundo. O gelo não simplesmente escorrega sobre uma planície; ele ocupa uma depressão que orienta a velocidade e a direção do escoamento. Mais para leste, o vale vai se tornando menos profundo.

Como acontece o desprendimento dos icebergs

O desprendimento, chamado de calving em inglês, ocorre quando blocos da frente da geleira se soltam e entram na água. Grandes eventos podem acontecer apenas algumas vezes durante o verão, mas fragmentos menores se desprendem continuamente ao longo do ano. A produção anual estimada antes das mudanças de 2002 era de aproximadamente 35 quilômetros cúbicos de gelo, embora existam diferenças consideráveis entre as estimativas.

O processo depende do aumento das fraturas na parte inferior do gelo, da passagem da região apoiada no fundo para a zona flutuante e da força exercida pelas marés. A água de degelo nas fraturas também amplia a pressão e favorece a separação dos blocos. A geleira flutuante sobe e desce com o movimento das marés, com variações de até três metros nas medições descritas.

Eventos observados em 1982 e 1985

Entre março e outubro de 1982, observações de satélite acompanharam a produção de icebergs. Foram registrados três episódios grandes; no maior deles, desprenderam-se 14 icebergs enormes, alguns com até dois quilômetros de comprimento por um de largura. O evento liberou aproximadamente 8,4 quilômetros cúbicos de gelo e fez a frente retroceder alguns quilômetros.

Em julho de 1985, outro evento levou a frente de Sermeq Kujalleq a recuar quase dois quilômetros em apenas 45 minutos. São exemplos de como mudanças que parecem graduais na escala de décadas também incluem episódios muito rápidos.

O fenômeno de agitação das águas no porto

Registros antigos de Ilulissat mencionam um fenômeno conhecido localmente como kaneling: a água do porto se agitava de repente, por poucos minutos, e podia trazer algas e material do fundo à superfície. O episódio foi descrito em 1921 e investigado posteriormente durante projetos de obras portuárias.

O mecanismo foi relacionado a ondas de pressão geradas por grandes desprendimentos na frente glacial, amplificadas pela ressonância da bacia do porto. A diminuição da frequência do fenômeno no início do século XX foi associada ao recuo e ao afinamento da geleira. Isso não deve ser confundido com as ondas perigosas produzidas diretamente por icebergs que viram na baía de Disko.

O rompimento acelerado de 2002

Até o começo da década de 2000, a frente de Sermeq Kujalleq atravessou um período de relativa estabilidade. A partir de 2002, a porção flutuante sofreu desagregação intensa, com a frente deslocando-se cerca de 12 quilômetros para leste. Grandes pedaços do antigo término da geleira permaneceram no fiorde, dificultando, em algumas observações, distinguir o gelo ainda ligado à corrente dos blocos já desprendidos.

Imagens de satélite entre maio de 2001 e maio de 2003, complementadas por sobrevoos em agosto de 2003, permitiram acompanhar essa transformação. As imagens indicaram que o último avanço sazonal de inverno ocorreu por volta de março de 2002, antes da fase mais dramática de recuo.

O banco submarino que retém os icebergs

Na saída de Kangia existe uma soleira submarina conhecida como Isfjeldsbanken, formada numa região onde morainas antigas se estendem entre as margens. Os maiores icebergs ficam retidos quando sua parte submersa alcança entre 200 e 300 metros de profundidade. Muitos permanecem no fiorde aproximadamente 12 a 15 meses, até derreterem o suficiente para transpor a barreira ou serem empurrados por outros blocos.

O banco cria um gargalo natural: icebergs grandes formam uma espécie de bloqueio que acumula muitos menores. O tamanho, a forma e a composição variam muito, desde pedaços pequenos até massas que se elevam mais de cem metros acima da água.

O caminho pelo Atlântico Norte

Quando deixam Kangia, os icebergs atravessam a baía de Disko e chegam ao estreito de Davis. As correntes transportam muitos deles para o norte ao longo da costa groenlandesa e depois em direção ao Canadá. A corrente de Baffin e a corrente do Labrador podem levá-los para o sul, por vezes até latitudes próximas de 40 graus norte, antes de derreterem.

Esse deslocamento representa um risco histórico à navegação. Após o naufrágio do Titanic, em 1912, foi organizada a vigilância internacional de icebergs no Atlântico Norte. A Guarda Costeira dos Estados Unidos começou o acompanhamento em 1914; a partir de 1928, as investigações também passaram a examinar de onde vinham os grandes blocos.

Por que alguns icebergs são azuis

O gelo glacial se forma pela compactação sucessiva de neve. À medida que cristais crescem e os espaços se fecham, pequenas bolhas de ar ficam aprisionadas. As bolhas dispersam a luz e contribuem para a aparência branca de grande parte do gelo.

Faixas azuis e esverdeadas costumam indicar trechos mais limpos, onde antigas fraturas se preencheram com água de degelo que congelou com poucas bolhas. As observações citadas no estudo registraram pressões normalmente entre quatro e cinco atmosferas nas bolhas de alguns icebergs, com casos que atingiram valores muito maiores. A cor, a quantidade de pedras incorporadas e a salinidade da água também influenciam quanto do iceberg permanece submerso.

O fiorde de Ilulissat combina, assim, uma corrente de gelo veloz, um vale profundo, uma barreira submarina e correntes oceânicas que levam blocos pelo Atlântico. O iceberg avistado na superfície é apenas a parte visível de um processo que começa no interior da calota continental.